I'VE GOT TO FIND MY BABY!

Elvis In Concert - Parte 2: 20, 21 e 22 de junho de 1977

Elvis em Augusta, Maine; 24 de maio de 1977 (©Harold Newton)
Em 17 de junho de 1977, Elvis começou o que seria sua última turnê. Durante dez dias ele se apresentaria em 10 cidades diferentes, incluindo Omaha e Rapid City, nas quais gravou seu especial, e culminando com o magnífico, para aquele momento, show de 26 de junho de 1977 em IndianapolisIndiana.

No total, Elvis passaria por um público de 117 mil pessoas e arrecadaria mais de US$ 1,5 milhões naqueles poucos dias. Em 1977, seus 59 shows renderiam em torno de US$ 7 milhões, uma soma baixa se comparada aos anos anteriores quando somente uma temporada de 30 dias em Las Vegas arrecadava US$ 2,5 milhões e as turnês nacionais traziam mais, em média, US$ 50 milhões.

Claro, a saúde fraca de Elvis tinha uma porcentagem no por quê desses números baixos, uma vez que os fãs mais novos começaram a vê-lo como um dinossauro da música. Outro ponto era o estilo musical da época que também começava a mudar rapidamente em direção ao Punk Rock e Pop, afastando plateias mais jovens. O trabalho da mídia, que difamava Elvis sempre que podia , também teve parte nisso.

Mas Elvis era Elvis e se havia coisas com que ele podia contar, eram os milhões de fãs espalhados pelos EUA e pelo mundo. Sua voz, que naquele tempo começava a soar como a de tenores, era outra coisa que nunca o abandonava. Mesmo nos piores shows de 1977, e eles foram muitos, infelizmente, sua voz permaneceu intacta e sonora - apesar de arrastada e cansada, por vezes.

Abaixo resenhamos mais 3 shows da última turnê: 20, 21 e 22 de junho.


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20 DE JUNHO DE 1977 - LINCOLN, NEBRASKA

Elvis em Lincoln, Nebraska; 20 de junho de 1977
(©Shirley Stevenson)
Depois do show gravado para o especial Elvis In Concert em Omaha, Nebraska, na noite anterior, Elvis vai a Lincoln, capital do estado. Aquela seria a primeira vez em que o Rei do Rock se apresentaria na cidade nos anos 1970 e apenas a segunda em sua carreira; ele havia passado por lá com seu show solo em 19 de maio de 1956, mais de 20 anos antes.

 A plateia era pequena, mesmo para 1977; 7500 pessoas o assistiram se apresentar com a jumpsuit Mexican Sundial. Isso se deu não porque Elvis já não atraia público, mas simplesmente pelo fato de que a maior parte dos fãs da região tinham ido ao show em Omaha, a maior cidade e mais rica, ao invés de assisti-lo na capital. Outro motivo é que Lincoln havia sido adicionada à turnê de última hora, devido ao fato de que pelo menos 5 mil fãs não tinham conseguido ingresso para Omaha. e também que a cidade já vinha pedindo um show de Elvis há algum tempo.

Como de costume, a apresentação começou oficialmente às 19h30 daquela segunda-feira, com JD Sumner & The Stamps, Sherrill Nielsen e The Sweet Inspirations fazendo seus shows solo, além do ato do comediante Jackie Kahane. As luzes se apagaram pouco tempo depois das 20h30, dando início à fanfarra de abertura e ao delírio da plateia. A primeira coisa que se nota é que a voz de Elvis está muito mais forte do que em Omaha e quase sem nenhum sinal de arrasto. Sua presença de palco também se mostra eletrizante quando ele canta o primeiro verso de "See See Rider". Em comparação com a noite anterior, era uma melhora considerável.

"I Got a Woman / Amen" trouxe um "striptease" mais longo e um Elvis muito bem humorado. Sua energia está tão concentrada que ele até mesmo faz golpes rápidos de karatê e joga o violão para Charlie no fim da música - algo que havia sido abandonado quase completamente em 1977. "Love Me" segue a noite com uma multidão de fãs gritando e tentando pegar um lenço de Elvis, que usa vocais diferentes e surpreendentes durante a rendição. "If You Love Me, Let Me Know; if you don't, then buzz off", anuncia Elvis em clara mensagem a Ginger. A canção é bem executada e a plateia gosta do que ouve. Em seguida teríamos a segunda melhor "You Gave Me a Mountain" do ano, com o Rei do Rock apresentando controle vocal completo e uma voz extremamente forte que envolve o local.

O que vem a seguir não é nada menos surpreendente. "Jailhouse Rock" soa clara como não soava há pelo menos dois anos e levanta o público. "O Sole Mio/It's Now or Never" e a rara "Love Me Tender" continuam as surpresas da noite, seguidas por "Teddy Bear/Don't Be Cruel", a também rara "Help Me" (executada com maestria), um trecho de "Suspicious Minds" (um segundo) e a rendição de "Unchained Melody" (excepcionalmente antes das introduções da banda) considerada a melhor de 1977. As apresentações dos membros da TCB Band, backing vocals e Joe Guercio e sua orquestra decorre como de costume, com JD e os Stamps cantando "Walk That Lonesone Road" e cada instrumentista fazendo um solo, acompanhado ou não por Elvis nos vocais.

"Hurt" trouxe Elvis novamente expondo seu poder vocal daquela noite e "Hound Dog" alucinou as fãs pelos movimentos pélvicos feitos pelo Rei do Rock. "Can't Help Falling In Love" é executada por Elvis com notas de baixo na duração e traz o fim da apresentação perante uma pateia que aplaude efusivamente. Em retrospecto, Felton Jarvis, RCA e CBS talvez tenham se arrependido de não terem gravado profissionalmente este show.



21 DE JUNHO DE 1977 - RAPID CITY, SOUTH DAKOTA

Elvis em Rapid City, South Dakota; 21 de junho de 1977
Assim como Lincoln, Rapid City receberia um show de Elvis pela primeira vez nos anos 1970. Diferente da primeira citada, o Rei do Rock não havia se apresentado lá nos anos 1950 e seria o primeiro artista a utilizar as instalações do recém construído Rushmore Plaza Civic Center. A lotação foi esgotada poucas horas depois do início das vendas dos ingressos e 10 mil pessoas assistiram Elvis se apresentar com a jumpsuit Mexican Sundial.

Depois do excelente show da noite anterior, a CBS e a RCA não perderiam a oportunidade de gravar a apresentação para incluir no LP In Concert e no especial de TV. Foi decidido que ali também seria capturado parte dos bastidores, com a chegada de Elvis ao local e a entrega de prêmios e comendas a ele, os mais significativos sendo a chave da cidade, dada pelo prefeito, e um Medalhão da Vida presenteado por uma garotinha da tribo local dos índios Sioux. Cercado dos membros da Máfia, Elvis é auxiliado com seu guarda-roupa a portas fechadas e então escoltado até a traseira do palco, de onde esperaria seu momento de entrada.

Acompanhe abaixo a resenha detalhada da apresentação.
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1. Also Sprach Zarathustra - Como sempre, a plateia se eletrifica com a chegada do momento mais esperado da noite.

2. See See Rider - Elvis não demora muito a entrar no palco e os fãs gritam e aplaudem de forma ensurdecedora. A canção começa e logo percebemos que a força da noite anterior permanecia. Mais surpreendente ainda, Elvis estava totalmente ciente do que acontecia a seu redor e foi capaz de perceber que entrara errado na segunda estrofe, parando a música e recomeçando-a daquele mesmo ponto. Notas altas e baixas são emitidas com maestria durante a rendição e a finalização é perfeita.

3. I Got a Woman / Amen - Elvis agradece à plateia e inicia sua rotina dos "well, well..." enquanto troca algumas piadas internas com a banda e backing vocals. Sua voz é constante durante toda a canção e "Amen" é bastante inspiradora, com o Rei do Rock emitindo notas de baixo. Elvis faz seu famoso "striptease" de forma muito mais dinâmica, seguido dos dive bombs de JD e uma finalização fantástica.

4. That's All Right - "Se ainda não sabem, vocês estão na televisão, então não deixem as luzes e câmeras derrubarem vocês e não derrubem elas, se puderem evitar", brinca Elvis. Ele pede a Charlie que lhe dê um pouco de água porque está "com a boca seca como algodão" e, após beber, morde a língua sem querer; tanto a secura na boca quanto a língua inchada, que o fazia arrastar as palavras, eram efeitos colaterais de suas medicações. Desde o dia 19, Elvis vinha diminuindo o consumo e sua dicção melhorara consideravelmente no decorrer daquelas 72 horas. "That's All Right" teve sua melhor rendição daquele turnê.

5. Are You Lonesome Tonight - "Depois gravamos uma canção chamada 'Are You Lonesome Tonight'. E eu estou... Quer dizer, estava...", introduz de forma sarcástica. Após uma breve reclamação sobre a qualidade das paletas que está usando (uma quebrara em sua mão), Elvis começa a canção. Sua voz está forte, mas a língua inchada o faz errar a pronúncia durante a parte falada da letra, o que acaba sendo uma oportunidade para que ele improvise. Mostrando ainda estar em contato com a realidade e de mente sã, ele relembra um episódio de 1969 quando riu incontrolavelmente durante a execução da mesma canção depois que fez um trocadilho com a letra devido à inusitada presença de um homem que deixa sua peruca cair em frente ao palco.

6. Love Me - "Boa noite, senhoras e senhores, meu nome é Wayne Newton", brinca lembrando que o cantor adorara seu estilo de cabelo. "Alguém me disse que este prédio é novo e eu sou a primeira pessoa a se apresentar aqui, é verdade?", Elvis pergunta à plateia que responde positivamente. Percebendo estar suando, ele diz ao público que está usando maquiagem por causa das filmagens e para que "não se preocupem porque qualquer coisa errada será "cortada, editada, censurada." A canção decorre como de costume, com Elvis entregando lenços para as fãs.

7. If You Love Me (Let Me Know) - "Esta canção foi gravada por Olivia Newton-John e se chama 'If You Love Me, Let Me Know... If you don't then move it!", Elvis novamente dá o recado a Ginger. Nota-se que essa é uma das músicas de que ele realmente gosta, porque pede à plateia que o acompanhe e ensaia alguns tímidos passos recebidos com entusiasmo por todos.

8. You Gave Me a Mountain - "Obrigado, muito obrigado. 'Mountain'", introduz rapidamente. A versão é a melhor do ano, com Elvis fazendo uma espetacular finalização.

9. Jailhouse Rock - "Meu terceiro filme foi Jailhouse Rock" é tudo que Elvis precisa dizer para enlouquecer a plateia. Fica claro que o pequeno inchaço na língua dificulta a rendição, que requer uma rápida sucessão de palavras complicadas, mas Elvis tira de letra.

10. O Sole Mio / It's Now or Never - Enquanto Sherrill Nielsen faz seu solo em italiano, Elvis faz caretas para tentar desconcentrá-lo. A versão em inglês de Elvis provaria ser uma das melhores da turnê, com uma nota alta surpreendente no final.

11. Tryin' to Get to You - "Esta próxima canção eu gravei há uns 18 anos e meu pai gosta, minha namorada Ginger gosta... Você precisa apertar o cinto nos lugares certos. Ela se chama 'Tryin' to Get to You'". É incrível ver que Elvis ainda tinha muito potencial se parasse de se automedicar em excesso. Sua voz brinca através das notas e atinge seu objeto sem esforços, criando sem dúvidas a melhor rendição do ano. Coincidentemente, esta seria a última vez em que ela seria apresentada.

12. Hawaiina Wedding Song - "Eu fiz um filme chamado 'Blue Hawaii' e nele havia uma canção chamada 'Hawaiian Wedding Song'. Foi tão real que eu precisei de dois anos antes de perceber que era só um filme, que eu não era nada da garota", Elvis explica. A versão é regular, tento muitas melhores, mas termina em alto estilo com o Rei do Rock entregando uma lei para Kathy Westmoreland e lhe dando um beijo.

13. Teddy Bear / Don't Be Cruel - O medley transcorre como esperado, com Elvis entregando muitos lenços a fãs enlouquecidas na beira do palco.

14. My Way - "Esta canção foi gravada por Frank Sinatra e se chama 'My Way'". A rendição de Elvis é feita de uma forma muito boa, como não era já há algum tempo. Notas executadas brilhantemente terminam a canção em um tom bastante alto.

15. Introduções - Elvis apresenta The Sweet Inspirations, JD Sumner, The Stamps (individualmente), Kathy Westmoreland e Sherrill Nielsen. Ele se enrola durante a introdução de Nielsen, comentando "eu consigo cantar, mas não consigo falar".

16. Solos - John Wilkinson (Elvis canta "Early Morning Rain"), James Burton (Elvis canta "What'd I Say" e "Johnny B. Goode"), Ronnie Tutt, Jerry Scheff, Tony Brown (Elvis canta "I Really Don't Want to Know") e Bob Ogdin. Aparte de "I Really Don't Want to Know" e o solo de Ogdin, todos os outros trechos foram cortados pela CBS diretamente na fita, impossibilitando que eles sejam encontrados e recolocados na gravação.

17. Introduções II - Elvis apresenta Charlie Hodge, seu pai (que é levado até o palco e aplaudido por todos) e sua namorada. Joe Guercio e sua orquestra fazem seu solo.

18. Hurt - "Uma das minhas últimas 'Hurt' foi gravações... Gravações foi 'Hurt'!", Elvis brinca. A plateia claramente se emociona com a rendição bastante significativa naquela época. Por se tratar da gravação de um especial de TV com tempo limitado, Elvis não faz a repetição costumeira da última estrofe.

19. Hound Dog - "Obrigado, muito obrigado". O riff de James Burton no início da canção ressoa pela arena e faz o público vibrar. Elvis está animado desde o início e distribui lenços para a plateia. No final, ele até tento alguns passos elaborados de dança, já raros naquele ponto.

20. Unchained Melody - "Há uma canção que quero cantar...", Elvis começa a introduzir quando um fã grita "Love Me Tender!" e outro, "Moody Blue!". O Rei do Rock responde: "Não, 'Moody Blue' e 'Love Me Tender' eu vou cantar depois, preciso tocar esta antes." Infelizmente, elas nunca seriam apresentadas naquele show. Outra curiosidade é que Elvis anuncia que havia gravado "Unchained Melody" recentemente e que ela seria lançada em duas semanas; como o álbum Moody Blue, que possui a versão ao vivo de 26/04/77, só foi às lojas exato um mês depois, crê-se que Elvis se referia a um trabalho de estúdio que seria vendido como single, mas se ele já existiu, nunca foi colocado no mercado e a RCA o tem em seus cofres, o destruiu ou perdeu. A rendição de Elvis é bastante boa, mas não tanto quando a citada acima.

21. Can't Help Falling In Love / Closing Vamp - Elvis agradece aos engenheiros de som, sua banda, backing vocals, orquestra e equipe de filmagens antes de se dirigir ao público. "Quando nos quiserem de volta, deixem-nos saber e nós voltaremos. Adios." Assim como na noite anterior, Elvis faz notas de baixo enquanto rende sua canção mais famosa e que leva ao fim da apresentação. Durante a fanfarra de encerramento, a plateia aplaude efusivamente enquanto Elvis cumprimenta seus fãs e posa para fotos antes de se dirigir aos bastidores e sair do local às pressas em seu carro.











22 DE JUNHO DE 1977 - SIOUX FALLS, SOUTH DAKOTA

Elvis em Sioux Falls, South Dakota; 22 de junho de 1977
(©Ken Pope)
A segunda e última parada em South Dakota se daria em Sioux Falls, em um show em que Elvis usaria a jumpsuit Mexican Sundial mais uma vez perante uma plateia de 7911 pessoas. Assim como com Lincoln e Omaha, a maioria dos fãs resolvera ir à cidade maior, Rapid City, para assistir Elvis, e por isso o público em Sioux Falls foi pequeno para os padrões de 1977.

O show de 22 de junho de 1977 não está disponível em áudio ou vídeo, tornando difícil resenhá-lo. As únicas informações vem de fãs e jornalistas da época, que montam um cenário mediano a precário. Elvis estava de bom humor, mas já começando a exibir sinais de retorno ao abuso de remédios e com a voz um pouco arrastada. Devido à falta de informações confiáveis, não se sabe qual foi a tracklist da apresentação, mas crê-se que tenha sido igual ou parecida ao restante da turnê.

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LEIA TAMBÉM:

- Elvis In Concert - Parte 1: 17, 18 e 19 de junho de 1977 (clique aqui)

Elvis In Concert - Parte 1: 17, 18 e 19 de junho de 1977

Elvis em Charlotte, North Carolina; 21 de fevereiro de 1977 (©George Hill)
Em 17 de junho de 1977, Elvis começou o que seria sua última turnê. Durante dez dias ele se apresentaria em 10 cidades diferentes, incluindo Omaha e Rapid City, nas quais gravou seu especial, e culminando com o magnífico, para aquele momento, show de 26 de junho de 1977 em Indianapolis, Indiana.

No total, Elvis passaria por um público de 117 mil pessoas e arrecadaria mais de US$ 1,5 milhões naqueles poucos dias. Em 1977, seus 59 shows renderiam em torno de US$ 7 milhões, uma soma baixa se comparada aos anos anteriores quando somente uma temporada de 30 dias em Las Vegas arrecadava US$ 2,5 milhões e as turnês nacionais traziam mais, em média, US$ 50 milhões.

Claro, a saúde fraca de Elvis tinha uma porcentagem no por quê desses números baixos, uma vez que os fãs mais novos começaram a vê-lo como um dinossauro da música. Outro ponto era o estilo musical da época que também começava a mudar rapidamente em direção ao Punk Rock e Pop, afastando plateias mais jovens. O trabalho da mídia, que difamava Elvis sempre que podia , também teve parte nisso.

Mas Elvis era Elvis e se havia coisas com que ele podia contar, eram os milhões de fãs espalhados pelos EUA e pelo mundo. Sua voz, que naquele tempo começava a soar como a de tenores, era outra coisa que nunca o abandonava. Mesmo nos piores shows de 1977, e eles foram muitos, infelizmente, sua voz permaneceu intacta e sonora - apesar de arrastada e cansada, por vezes.

Abaixo resenhamos os 3 primeiros shows da última turnê:
17, 18 e 19 de junho.





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17 DE JUNHO DE 1977 - SPRINGFIELD, MISSOURI

Elvis em Springfield, Missouri; 17 de junho de 1977
Depois de 15 dias de descanso - a quarta e penúltima turnê do ano havia terminado em 2 de junho - Elvis volta aos palcos em Springfield, no que seria a abertura de sua última turnê. Ele não estava tão mal quanto no início de fevereiro ou fim de maio, para a alegria dos fãs. De fato, a apresentação daquela noite superou a expectativas de acordo com muitos pelo que se havia visto apenas quinze dias atrás em Mobile.

Mesmo assim, ainda havia incertezas no ar. Elvis começava a apresentar um quadro não muito promissor de depressão profunda e a reter líquido rapidamente - o que era normal desde 1975, mas não no ritmo de então. Alguns fãs cogitam que o divórcio, em outubro de 1973, tenha um papel fundamental na piora de sua saúde nos anos seguintes, mas esse foi o ponto menos impactante de tudo e, ao contrário do que muitos pensam, Elvis não morreu de amores por Priscilla.

O que realmente deprimia o Rei do Rock em 1977 era que sua vida estava indo por um rumo estranho e Parker só pensava em maximizar os ganhos, uma vez que a mudança na aparência era empecilho para muitos ditos fãs que deixaram de acompanhá-lo. Outro ponto era a imprensa, que diariamente trazia matérias falando de sua "decadência". Mas o que mais deprimia Elvis era o lançamento de "Elvis: What Happened?", o livro de Red e Sonny West, escrito por pura vingança depois que Vernon os demitiu, cheio de inverdades e acontecimentos pessoais que a ninguém interessavam a não ser Elvis.

O show de 17 de junho de 1977 não está disponível em áudio ou vídeo, tornando difícil resenhá-lo. As únicas informações vem de fãs e jornalistas da época, que montam um cenário mediano a favorável. Elvis estava de bom humor e cantou bem, apesar da voz um pouco arrastada. Devido à falta de informações confiáveis, não se sabe qual foi a tracklist da apresentação, mas crê-se que tenha sido igual ou parecida ao restante da turnê. Uma menção especial foi feita por Elvis a John Wilkinson, nascido em Springfield. Com a jumpsuit Mexican Sundial, Elvis foi assistido por nove mil pessoas.


18 DE JUNHO DE 1977 - KANSAS CITY, MISSOURI

Elvis em Kansas City, Missouri; 18 de junho de 1977
Nos anos 1970, Elvis havia se apresentado em Kansas City apenas quatro vezes antes desta, todas com espaço de tempo de 1 e meio a dois anos. Era natural que aquela fosse uma das maiores plateias do ano, e foi - 17 mil pessoas viram um Elvis aparentemente se sentindo bem com sua jumpsuit secundária daquele ano, a 1974 Arabian.

Apesar da voz um tanto arrastada, Elvis soou bastante forte em seu primeiro "Oh, see! See, see, rider". O público estava realmente eu fórico com a presença do Rei do Rock e ajudava a aumentar seu ânimo durante a primeira canção. Falando, entre uma canção e outra, notava-se mais os efeitos dos remédios que tomava em seu discurso, mas não era nada que o tornasse ininteligível como fora em ocasiões de alguns meses antes.

"I Got a Woman/Amen" soou um pouco mais fraca, mas era comum à época. A voz de Elvis somente atingiria seu pico na segunda metade da apresentação em todos os shows daquele ano. Sua rotina do "striptease" levou os fãs ao delírio, apesar da demora em continuar com o programa (I Got a Woman/Amen foi estendida para incríveis 8 minutos e meio, quando deveria tomar apenas 5 ou 6). Na sequência, Elvis apresentou uma versão bastante boa de "That's All Right" e cantou "Blue Christmas" e "Big Boss Man" pela última vez.

É muito provável que a RCA estivesse gravando essa apresentação pelo fato de que Elvis canta algumas raridades como as citadas acima. A versão de "My Way", com um verso falado, também foi um dos pontos altos. Assim como com alguns shows de fevereiro, março e maio, a gravadora bem podia estar trabalhando junto a Felton Jarvis para capturar momentos de magníficas rendições para, pelo menos, o LP Elvis In Concert; porém, não há confirmação da existência de um soundboard, mesmo que parcial, do evento daquela noite.

A apresentação da banda e orquestra toma 20 minutos do show, outra parte longa do show. Como de costume, a persona de palco de Elvis já estava acordada nesta parte. "Hurt" e "Hound Dog" arrancam aplausos efusivos da plateia, com Elvis bastante entusiasmado. Mas o show está no fim e só resta "Can't Help Falling In Love" para fechar o set, a qual ele executa com maestria e até mesmo atinge uma nota bastante alta no fim. Elvis vai e volta no palco, parecendo não querer ir embora, e os fãs vão à loucura. Assim se encerrava a última visita do Rei do Rock a Kansas City.




19 DE JUNHO DE 1977 - OMAHA, NEBRASKA

Elvis em Omaha, Nebraska; 19 de junho de 1977
(©Sean Shaver)
Sem sombra de dúvidas este é o show mais lembrado dos três desta postagem. Não somente porque é o que está registrado em vídeo pela CBS-TV e em soundboard pela RCA, mas porque é, por estes mesmos motivos, o que mais mostra como Elvis precisava de ajuda naquele momento.

Com tantos problemas na cabeça, como a chegada às lojas do temido livro dos West em pouco mais de um mês, era visível que o Rei precisava de um descanso dos palcos e da correria; sem perder sua majestade, Elvis colocava os fãs em primeiro lugar, quando se tratava de sua vida pessoal ou saúde, o que muitas vezes, como neste período, era prejudicial a ele.

Mas Omaha foi, de longe, o melhor show depois dos de 20 e 21 de fevereiro de 1977. Sim, Elvis estava visivelmente cansado e um tanto perdido de início, mas sua voz novamente não o deixou desamparado.

Acompanhe abaixo a resenha detalhada da apresentação.
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1. Also Sprach Zarathustra - Quando a banda TCB e a orquestra de Joe Guercio começam a tocar a fanfarra característica do início dos shows, a plateia se eletrifica. Os primeiros acordes da introdução trazem gritos e aplausos efusivos.

2. See See Rider - A plateia se levanta, grita e aplaude quando Elvis põe os pés no palco. Fazendo uma cara de "o que estão todos fazendo aqui?", ele se mostra bem humorado. O Rei do Rock caminha de um lado ao outro do palco, posa para fotos e cumprimenta todos os seus colegas antes de se dirigir ao microfone. A voz de Elvis está forte, mas o sistema de som não ajuda (um problema que persistirá por toda a apresentação). De início nota-se que o mix está errado, com a voz de Elvis baixa, a de Charlie Hodge alta demais (alguns brincam que o show era de Charlie com Elvis cantando a harmonia) e a banda e backing vocals sufocados. É perceptível que o Rei não está nos seus melhores dias; se estivesse, teria parado o show e recomeçado, como faria em Rapid City, ao primeiro sinal de erro. Mas sua voz é infalível durante toda a execução.

3. I Got a Woman / Amen - O primeiro "weeeelll..." de Elvis traz gritos enlouquecidos, mostrando que mesmo em meio a todos os problemas seu poder e presença ainda eram grandes. A canção transcorre bem, com Elvis fazendo algumas notas de baixo no decorrer. Durante seu diálogo usual no fim da canção, ele explica à plateia que está usando maquiagem e que aquilo não é comum em seus shows. Um rápido "striptease" leva aos dive bombs de JD e ao fim da rendição. Novamente, a voz de Charlie atrapalha um pouco a harmonia. Um fã grita "vire-se!" (o concerto foi dado em uma arena com plateia por todos os lados) e Elvis atende ao pedido, brincando: "É Deus me chamando? Sim, filho!" (uma espécie de previsão sombria, se pararmos para pensar).

4. That's All Right - "Eu gostaria de apresentar a primeira música que gravei... That's All Right Mama... Tudo que tínhamos eram um baixo, uma guitarra e um violão... Eu só sei três acordes... Sem bateria nem nada." Uma fã grita "Elvis!", ao que o Rei do Rock, mostrando estar ligado ao que acontece ao redor e pensando rápido, responde imediatamente "querida, eu disse para esperar até depois do show..." Elvis dá o seu melhor e felizmente Charlie Hodge não está cantando por precisar segurar o microfone para o cantor, mas o mix continua errado e o violão de Elvis é ouvido muito á frente dos outros instrumentos.

5. Are You Lonesome Tonight - Entre uma música e a outra, um ruído elétrico chama a atenção de Elvis. Talvez por isso ele se atrapalha durante o primeiro verso e recomeça a canção. Claro, a cena do "casal gay" entre Elvis e Charlie durante o verso falado traz risos da plateia. Em geral, rendição é boa, mas não tanto quanto a de Rapid City. Mais um diálogo com o público se segue e Elvis pergunta se o áudio está bom na parte traseira da arena (a resposta dos fãs é mista) antes de avisar que estão sendo filmados e devem ter cuidado com as câmeras.

6. Love Me - Em um especial de televisão como seria o In Concert, a canção não podia faltar. Ela era um dos pontos altos de suas apresentações desde 1969 e o primeiro momento em que Elvis entrava em contato direto com o público e entregava lenços. Antes de iniciar, o cantor brinca com Sherrill Nielsen, perguntando por que a jumpsuit dele era mais bonita do que a do artista principal. A versão é rápida (com a voz de Charlie atrapalhando de novo) e leva a platéia à loucura. Depois da rendição, Elvis explica ao público que estão tendo dificuldades técnicas com o som antes de continuar sua apresentação.

7. Fairytale - "Esta próxima canção é a história da minha vida, se chama Fairytale", Elvis introduz. Não há muito diálogo entre uma canção e outra, provavelmente porque a filmagem custava caro, e o Rei do Rock parece estar se divertindo em cantar algumas músicas de sua preferência e/ou com a ideia de voltar a um meio mais abrangente como a TV. O som do local não ajuda, mas Elvis consegue atingir notas bastante altas e se superar.

8. Little Sister - "Eu gostaria de fazer um medley das minhas canções... começando com Little Sister". É o suficiente para aquela explicação, e Elvis já entra na música com entusiasmo. É aqui, aos 30 minutos de show, que ele começa a tentar os primeiros passos mais elaborados e a lembrar a plateia de quem era.

9. Teddy Bear / Don't Be Cruel - O clássico medley começa sem introduções e quase grudado ao fim da música anterior. Elvis se diverte ao entregar lenços para uma parte mais afastada da plateia, vendo as mulheres enlouquecendo e tentando agarrar umas às outras para conseguir o souvenir. Uma fã quase cai de uma barra de proteção e Elvis diz "cuidado". Na transição entre "Teddy Bear" e "Don't Be Cruel" ele olha para Charlie e sorri, como se não acreditasse no que via.

10. And I Love You So - "Esta próxima canção é uma que colocamos em um 'álblum'... 'Álblum'? Se chama And I Love You So." É difícil não pensar que Elvis remetia seu pensamento naquele momento para março de 1975, quando estava muito bem em sua relação com Sheila Ryan e oferecera a música a ela durante a gravação. A rendição é perfeita para o período e Elvis até mesmo inclui algumas notas baixas em seu canto.

11. Jailhouse Rock - "Meu terceiro filme foi Jailhouse Rock" é a única introdução. A canção arranca aplausos efusivos da plateia e anima Elvis a dar uns passos mais ousados.

12. How Great Thou Art - Sem dúvida a melhor rendição da noite, ela é recebida com respeito pelos fãs. É incrível ver Elvis ganhar vida através desta canção Gospel que era uma de sua preferidas. Todos os seus problemas parecem estar longe naquele momento, sua voz, alma e corpo dedicados ao canto religioso em uníssono. Por várias vezes Elvis atinge seu alcance vocal total de 3 oitavas, principalmente no final triplo da canção. Tanto a plateia quanto a banda, orquestra e backing vocals vibra, com a execução perfeita.

13. Introduções - Aproveitando para descansar a voz por algum tempo, Elvis apresenta as Sweet Inspirations, JD Sumner, The Stamps (de forma individual), Kathy Westmoreland e Sherrill Nielsen.

14. Early Morning Rain - O solo de John Wilkinson (guitarra rítmica) traz Elvis cantando uma das músicas mais preferidas de seu especial no Havaí em 1973.

15. What'd I Say / Johnny B. Goode - James Burton faz seu solo de guitarra com Elvis cantando partes da primeira canção. Na sequência, ele mostra suas habilidades tocando a guitarra colocada atrás de sua cabeça. Elvis canta durante esta que é outra de suas preferidas.

16. Ronnie Tut / Jerry Scheff - O solo de bateria é bastante comemorado por Elvis, que acompanha com algumas notas de baixo, e pela plateia. Scheff faz seu clássico Blues, também muito bem recebido pelo cantor e acompanhado de notas de baixo.

17. I Really Don't Want to Know - Tony Brown faz um pequeno solo uptempo (Elvis novamente faz notas de baixo). Em seguida, acompanha o Rei do Rock na canção gravada em 1970 para o disco Elvis Country.

18. Bob Ogdin / Charlie Hodge / Joe Guercio - Finalizando as introduções, Elvis apresenta o solo de piano elétrico de Ogdin, seu fiel escudeiro Charlie Hodge e Joe Guercio com sua orquestra, que faz um breve solo.

19. Hurt - "Uma das nossas gravações mais recentes se chama Hurt", Elvis anuncia. Uma das canções mais emocionantes do período, a plateia ouve em silêncio. Elvis estava preocupado de início, comentando que achava que não ia conseguir alcançar as notas certas e sendo incentivado por Charlie e as Sweet Inspirations, mas no final as suas 3 oitavas não falham e surpreendem a ele mesmo.

20. Hound Dog -  A voz de Elvis começa a soar cansada, talvez pelo esforço com a canção anterior, mas ele ainda dá um bom show. A plateia vibra enquanto o Rei do Rock faz alguns de seus famosos movimentos pélvicos.

21. O Sole Mio / It's Now or Never - Sherrill Nielsen usa seu conhecimento vocal em seu solo com a versão italiana, com Elvis chamando-o de "smartalec" como de costume. Pode parecer tarde para uma canção que exige muito vocalmente, principalmente depois que "Hound Dog" foi um tanto fraca, mas seu poder retorna de forma tão magnífica quanto a rendição do clássico se mostraria.

22. Can't Help Falling In Love / Closing Vamp -  "Obrigado, senhoras e senhores. Eu gostaria de dizer algumas coisas, se puder... Estamos trabalhando sob circunstâncias difíceis e tudo mais, mas vocês têm sido uma plateia incrível e têm nos ajudado, e todos no palco trabalharam duro... Nós gostamos. Sempre que nos quiserem de volta, nos chamem que voltaremos a qualquer hora." Depois de agradecer alguns membros de sua entourage técnica, Elvis novamente avisa que o show vai estar na TV em breve. "Até nos encontrarmos novamente, que deus os abençoe. Adios.", o Rei do Rock se despede. Elvis distribui mais alguns lenços durante a última canção do show. O público aplaude e grita loucamente durante a fanfarra de encerramento, querendo capturar no mínimo um aceno de Elvis antes que ele parta para os bastidores e a incerteza sobre quando ele voltará a Omaha tome os fãs.


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LEIA TAMBÉM:

- Elvis In Concert - Parte 2: 20, 21 e 22 de junho de 1977 (clique aqui)

The Frank Sinatra Timex Special - Welcome Home Elvis (12 / 05 / 60)




Quando Elvis foi servir ao exército dos EUA na Alemanha em 1958, seu maior medo era de que em seu retorno, dois anos depois, todos já tivessem esquecido quem era aquele garoto de Memphis que fizera tanto sucesso desde 1954. Depois de tantos anos passando dificuldades, vendo a mãe adoecer cada vez mais e os bens familiares perecerem, ele entrou para o hall da fama da música e pode ajudar a mudar as coisas para seus pais e parentes, além de adquirir bens caros como Graceland e sua propriedade. Seria um arraso total se ele tivesse de deixar tudo isso para trás porque o tiro de Parker - afastar Elvis do público para gerar mais interesse - havia saído pela culatra.

Como explanado em postagem anterior (clique aqui) Elvis nunca quis servir ao exército como soldado comum de início, se interessando pelos Serviços Especiais (cantores e atores da época podiam pagar seu tempo apenas se apresentando para as tropas em algumas ocasiões, ao invés de se afastar da vida pública por dois anos), mas o Coronel fez manobras gigantes para colocá-lo no serviço - até mesmo mentindo que iria tentar retirá-lo completamente da obrigação. Descumprindo a promessa, Parker então quis acalmar o cantor com outra - a de que sua carreira seria mantida no topo até sua volta.


O RETORNO DO REI

Perto de 1960, os medos de Elvis sobre sua carreira estavam se tornando reais, mas o produtor da RCA Steve Sholes e Freddy Bienstock da Hill & Range tinham pensado com cuidado sobre seus dois anos de ausência. Armados com uma quantidade substancial de material inédito, eles mantiveram um fluxo regular de lançamentos bem sucedidos. Entre sua indução e retorno, Presley tinha dez hits no Top 40, incluindo "Wear My Ring Around Your Neck", o best-seller "Hard Headed Woman", e "One Night" em 1958, e "(Now and Then There's) A Fool Such as I" e o número um "A Big Hunk o 'Love" em 1959. A RCA também conseguiu gerar quatro álbuns compilando material antigo durante este período, sendo o de maior êxito o LP Elvis' Golden Records, que atingiu o número três nos gráficos, seguido de sua segunda parte, Elvis' Gold Records, Vol. 2 (AKA 50.000.000 Fans Can't Be Wrong).

O exército realizou uma conferência de imprensa no dia 1 de março de 1960, antes que Elvis fosse embora da Alemanha Ocidental, na qual ele foi questionado sobre sua decisão de servir como soldado regular e respondeu sobre suas expectativas quando ao retorno aos EUA. Em 2 de março, com Priscilla presente, Presley deu adeus para os fãs e meios de comunicação da Alemanha e voltou para casa em Memphis. Na rota, seu avião parou no aeroporto de Prestwick, na Escócia, para abastecer; esta seria a única vez em que ele colocaria os pés no Reino Unido. Em 3 de março, o avião de Presley chegou à Base da Força Aérea McGuire, perto de Fort DixNova Jersey, às 7:42 da manhã. Nancy Sinatra, representantes da RCA e Parker estavam lá para recebê-lo, bem como uma enorme multidão de fãs.

O motivo pelo qual Nancy foi receber Elvis e não Frank Sinatra foi, além de formarem um casal bastante interessante para a mídia, evitar tumulto com a presença de dois gigantes com milhões de fãs no mesmo lugar (em 1960 Nancy ainda era famosa apenas por ser filha de quem era e começaria sua carreira solo no ano seguinte).

Nancy Sinatra recebe Elvis em Fort Dix, Nova Jersey; 3 de março de 1960

PRESLEY X SINATRA

Em um grande evento midiático no dia 15 de julho de 1959, Parker anunciou que Elvis participaria do quarto e último especial Timex de Frank Sinatra em seu retorno aos EUA. Para o programa, originalmente intitulado Frank Sinatra's Welcome Home Party to Elvis Presley, ele receberia US$ 125 mil - uma soma inédita no momento para uma única aparição na televisão. Sinatra, obviamente, não estava feliz com o valor; o montante que ele havia sido pago por todos os programas não chegara nem perto disso. Ele aceitou, no entanto, que a aparição de Presley atrairia grandes audiências para o programa, algo que seus três especiais anteriores não conseguiram fazer.

O agente de Presley, o Coronel Tom Parker, também deixou bem claro que essa soma era para apenas duas músicas e aproximadamente 6-8 minutos de exposição. Parker esperava que a apresentação de Elvis no show de Sinatra o reencontrasse com uma plateia mais antiga, uma audiência que teria menos chances de esquecê-lo em favor do próximo ídolo adolescente. O especial de televisão reuniria duas das maiores estrelas do mundo da música, cada uma com seus próprios títulos lendários; Sinatra era conhecido como A Voz, e Presley como O Rei. Percebendo quão grande era essa oportunidade para seu cliente, Parker estava decidido a fazer as coisas funcionarem tão bem quanto possível.

Em 3 de março de 1960, Presley voltou para os Estados Unidos. Sinatra providenciou para que sua filha, Nancy, fosse parte da comissão de boas-vindas, presenteando Elvis com uma caixa de camisas polo em nome de seu pai (foto acima). Quando perguntado sobre quem eram seus cantores favoritos atualmente, Presley mencionou Sinatra junto a Dean Martin, Patti Page e Kitty Kallen. Dois dias depois, e dois anos após ter sido recrutado para o exército, Elvis foi honrosamente dispensado. Duas semanas se passaram e ele já estava em Nashville, no Tennessee, para gravar material novo para um LP ansiosamente esperado pelos fãs. Duas músicas que ele gravou em 21 de março foram escolhidas como os dois lados de seu primeiro single pós-exército e as que ele cantaria ao vivo no especial; "Stuck On You" e "Fame And Fortune".

Convite para compor a plateia da gravação, enviado aos grandes nomes da música, TV e cinema

No mesmo dia, depois de completar duas músicas para o álbum, Elvis tomou um trem para Miami, Flórida. Chegando no dia seguinte, Presley hospedou-se no Hotel Fontainebleau, local onde o programa seria gravado. Ele passou o resto da semana ensaiando para a apresentação ao vivo, que estava programada para ser gravada em 26 de março, e se encontrou com Sinatra para promover o programa em uma reunião cuidadosamente realizada que foi fotografada para a imprensa.

Sinatra e Presley tinham sido rivais musicais desde a década de 1950, e na ocasião, cada um deles havia sido perguntado de suas opiniões sobre o outro. Sinatra escreveu um artigo em uma revista francesa, a Western World, em 1957, descrevendo o Rock and Roll como uma música "cantada, tocada e escrita em sua maior parte por criminosos por meio de suas reiterações quase imbecis, levianas e letras explícitas - sujas, de fato - e, como eu disse antes, consegue ser a música marcial de todos os delinquentes com costeletas na face da Terra ... esse afrodisíaco com cheiro podre que eu deploro." Quando perguntado de sua reação ao ouvir isso, Presley respondeu: "Ele tem direito a sua opinião, mas não consigo vê-lo batendo sem motivo. Admiro-o como intérprete e ator, mas acho que ele está muito enganado quanto a isso. Se bem me lembro, ele também faz parte de uma tendência. Eu não vejo como ele pode chamar a juventude de hoje de imoral e delinquente".

A imprensa, a conhecimento ou não de Sinatra e Presley, estava tentando causar uma desavença entre os dois. No entanto, eles não tinham mais do que coisas boas a dizer um sobre o outro quando perguntados especificamente como sentiam. Sinatra, quando perguntado sobre o estilo de canto de Presley, respondeu: "Apenas o tempo dirá. Eles disseram que eu era uma aberração quando comecei, mas ainda estou por aí. Presley não tem nenhum treinamento. Quando ele entrar em algo sério, um tipo maior de canto, descobriremos se ele é um cantor. Ele tem um talento natural e animal." Por sua vez, quando perguntado novamente sobre os comentários anteriores de Sinatra sobre o Rock and Roll, Elvis foi muito gentil com Sinatra: "Admiro o homem ... Ele é um grande sucesso e um bom ator".

Antes da gravação do programa, Sinatra foi questionado sobre se havia ou não mudado de opinião quanto ao Rock. Ele sugeriu que não, simplesmente respondendo: "O garoto esteve ausente dois anos, e tenho a sensação de que ele realmente acredita no que está fazendo".


IT'S NICE TO GO TRAV'LLING

Elvis durante ensaio para o programa
Em 26 de março, às 18h15, a gravação do programa ocorreu no Fontainebleau Hotel. Seria a primeira aparição de Presley na televisão em mais de três anos, e sua primeira performance desde 1957, o que o deixava nervoso sobre como seria recebido. O Coronel Parker, talvez devido a seus próprios nervos, tinha trazido tantos fãs de Presley quanto possível para preencher a plateia, embora pelo menos metade ainda fosse composta por fãs de Sinatra. Para a ocasião, e para se encaixar com a personalidade do Rat Pack de Sinatra, Elvis usou um smoking.

A primeira aparição de Presley, muito breve, no show foi no início. Entrando com seu uniforme do exército, Elvis juntou-se aos outros convidados no show, incluindo Nancy de Sinatra, para cantar uma parte de "It's Nice To Go Trav'ling". Suas outras duas músicas, "Stuck On You" e "Fame And Fortune", haviam sido lançadas apenas alguns dias antes da gravação do especial mas já estavam nas bocas e mentes dos fãs. Presley também se apresentou com Sinatra, cada um cantando uma canção que o outro havia feito famosa e se revezando para cantar um verso de cada vez; Presley cantou "Witchcraft" e Sinatra, "Love Me Tender". Ambas as canções foram apresentadas no estilo de Swing pelo qual Sinatra era famoso, embora os críticos ficassem divididos sobre como aquilo soava; "Presley teve dificuldade com a melodia do sucesso de Sinatra, mas a harmonia entre o par em 'Love Me Tender' saiu em bom estilo", escreveram. Após aproximadamente oito minutos e um plug promocional rápido para seu novo filme, G.I. Blues, Presley foi embora. O resto do show girava em torno de Sinatra e seus amigos do Rat Pack.

Elvis e Frank nunca mais trabalhariam juntos, mas manteriam contato nos anos seguintes. Em 1968, Nancy seria a coestrela de "O Bacana do Volante" (Speedway) e Elvis a visitaria, junto a uma Priscilla bastante a contragosto, em sua estréia em Vegas em 1969. De fato, foi Sinatra que emprestou seu jato particular para Elvis e Priscilla se casarem em Vegas e depois irem para a lua de mel em Palm Springs. Frank pediu o pagamento do favor em 1970, quando enviou "My Way" a Elvis e solicitou que a gravasse para aumentar as vendas e atrair mais público (Elvis a gravou em 1971, mas no entanto, a versão de estúdio da canção só viria à público em 1995).



O programa, agora intitulado The Frank Sinatra Timex Special: Welcome Home Elvis e patrocinado pela Timex Company, foi transmitido a nível nacional na ABC-TV na noite de 12 de maio de 1960 entre 21:30 e 22:30 EST. Os números de exibição foram elevados, com uma classificação Trendex de 41,5%, aproximadamente 67,7% da audiência geral da televisão. Para colocar isso em perspectiva, o segundo programa avaliado nesse intervalo de tempo, The Ernie Ford Show da NBC, com Johnny Cash e Groucho Marx, atraiu uma audiência de 21,1%.

Os comentários sobre o programa geralmente eram bons, embora nem todos ficassem impressionados. A Life Magazine disse que "Sinatra faz a melhor música da temporada", e referiu-se a Elvis como "ainda um favorito reinante depois de dois anos no exército". A revista Billboard declarou:

"A dinamite esperada foi, para colocar educadamente, um pouco superestimada ... Presley tem muito a aprender antes de poder trabalhar na mesma liga de profissionais como Sinatra, Joey Bishop e, em especial, Sammy Davis Jr., que terminou o show com seu canto e imitações ... O verdadeiro vencedor foi provavelmente o Fontainebleau Hotel, onde o show foi gravado em março passado. Ele obteve uma ótima campanha publicitária."

O New York Times foi um pouco mais duro com Presley quando analisou o show.

"Enquanto estava no serviço, ele perdeu suas suíças, dirigiu um caminhão e, aparentemente, se comportou de maneira militar aceitável. Mas agora ele é livre para se apresentar em público de novo, como fez no 'Frank Sinatra Show' da noite passada no canal 7 ... Embora Elvis tenha se tornado um sargento no exército, como cantor, ele nunca deixou o estranho. Não havia nada de repreensão moral em relação a sua performance; foi simplesmente horrível."

Elvis e o elenco do programa de Frank Sinatra durante a gravação; 26 de março de 1960


Ed Sullivan, o homem que apenas três anos antes chamou Presley de "um verdadeiro bom menino decente" quando a jovem estrela apareceu pela última vez em seu show, também deu uma crítica muito dura ao especial de Sinatra. Escrevendo no New York Daily News, Sullivan disse: "Presley, sem suas suíças, as substituiu pelo que as mulheres provavelmente chamariam de 'cabelo alto'. Seu cabelo é tão alto na frente que parece um salto de esqui". Sullivan também criticou a habilidade de Parker em adquirir US$ 125 mil por oito minutos de trabalho: "O coronel Tom, usando a lógica de um fazendeiro, acredita firmemente em não dar a um cavalo com fome um fardo de feno". No entanto, Sullivan não conseguiu levar em conta o fato de que o especial não pertencia a Presley, era o show de Sinatra, e havia outros convidados que tinham de ter tempo de exposição.

Em seu livro, Elvis For Dummies, a autora Susan Doll assinala o quão importante este especial de televisão foi para a carreira de Presley. Ela escreve: "Aparecer com Sinatra sugeriu que Elvis estava seguindo o mesmo caminho de carreira [de Sinatra] e, portanto, era o herdeiro natural da Voz". Ela também aponta que o estilo de canto de Presley e a aparência no show "sinalizaram claramente que Elvis estava cortejando um público cada vez mais adulto".


VÍDEO: THE FRANK SINATRA TIMEX SPECIAL - WELCOME HOME ELVIS (PROGRAMA COMPLETO COM INTERVALOS)

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