I'VE GOT TO FIND MY BABY!

A Máfia de Memphis

1956: Primeira foto do que viria a ser a Máfia de Memphis,
tirada 
pelo repórter também responsável por criar o apelido. 
A Máfia de Memphis era um grupo de amigos, associados, empregados e paus mandados cuja função principal era estar perto de Elvis Presley o tempo todo desde 1956 até sua morte. Muitos deles preenchiam papéis na vida do Rei do Rock, como providenciar sua segurança nas turnês, logística e marcação das datas e locais dos shows. Nesses casos, Elvis pagava salários (definidos pelo Coronel), mas a maioria vivia de benefícios como presentes, carros, casas e bônus. O número de integrantes variou através dos anos, mas a parte central do grupo era sempre composta pelas mesmas pessoas que passavam grandes quantidades de tempo com Elvis.




MEMBROS INICIAIS

Elvis preferia ter à sua volta homens que fossem leais, confiáveis e fizessem a diferença, por isso familiares e amigos de infância eram muito importantes para ele. O grupo começou com os primos de primeiro grau de Elvis, Junior e Gene Smith, o amigo de colégio Red West e o cantor rockabilly Cliff Gleaves. Judy Spreckles parece ter sido a única mulher a integrar o grupo ainda nos anos 1950. No ponto mais alto dos "Wild Bunch" (bando selvagem, como eram conhecidos pelas autoridades), a base central da Máfia chegou a ter 23 membros, sem contar Elvis e o Coronel. Fora estes "pilares", ainda eram considerados integrantes todos os membros da banda, backing vocals e namoradas de Elvis.

Entre os primeiros membros também estavam Delbert "Sonny" West, Billy Smith, Charlie Hodge, Lamar Fike e Marty Lacker. Com o passar dos anos a lista de pagamentos cresceu com a entrada de Jerry Schilling, Larry Geller, Joe Esposito, Dave Hebler, Marc Luciano, os irmãos Stanley (Ricky, Billy e David) e vários outros. Biógrafos especializados na Máfia dizem que Elvis a teria formado porque sabia que aquela seria a única maneira de tirar seus amigos de infância e familiares da pobreza.

A Máfia de Memphis nos anos 1950 e início da década de 1960



ORIGENS DO APELIDO E DO TCB / TLC

Por volta de 1956, a mídia adotou o nome para identificar os homens que cruzavam a cidade em limusines pretas, vestidos de preto e com óculos escuros, escoltando Elvis. Um jornalista que observava a chegada de Elvis a um hotel perguntou "quem são eles, a máfia?" e o apelido decolou. O próprio Elvis teria gostado do nome, embora Priscilla diga o contrário. Segundo ela, Elvis não gostava do nome porque ele poderia ser associado com o crime organizado (que havia tentado tomar conta da carreira de Elvis por diversas vezes).

Já os acrônimos TCB (Taking Care of Business - Tomando Conta dos Negócios) e TLC (Tender Loving Care - Cuidado Tenro e Amoroso) foram criados para definir quem é quem dentro do grupo. Os TCB eram, além de Elvis, os que trabalhavam diretamente para ele (como a banda TCB). Quem recebia pulseiras, colares e jóias com a gravação TLC eram em geral as pessoas que trabalhavam nos bastidores e as mulheres. Apesar disso, praticamente todos tinham jóias com ambos símbolos.


VIDA DE FESTAS

Peter Guralnick escreve: "Elvis e sua máfia passavam dia e noite na farra. Hollywood era um excelente convite para não dormir. Às vezes eles passavam as noites com Sammy Davis, Jr. e o excêntrico Billy Murphy. O Coronel os descrevia como "um bando de velhos". Eles chegaram a se assemelhar ao Rat Pack de Frank Sinatra nas excentricidades. Nick Adams e sua gangue estavam sempre lá também. Elvis e os garotos viviam tomando speed".

Segundo Joe Esposito, "era uma festa que você não acreditaria. Iamos a shows diferentes toda noite e pegavamos dezenas de mulheres para voltar para a festa na noite seguinte. Viamos todos os artistas da época e nunca dormiamos, Viviamos só tomando pílulas para aguentar a noite".

Elvis e seus cinco homens de confiança em 27 de julho de 1968, durante as gravações para o '68 Comeback Special.
Da esquerda para a direita: Alan Fortas, Coronel Parker, Lamar Fike, Joe Esposito e Charlie Hodge.



SEGURANÇAS E OUTROS EMPREGADOS

A fama de Elvis, que só crescia em 1956, fez com que houvesse a necessidade da criação desse grupo de homens que forneceriam segurança e apoio. Quando Elvis alugava cinemas para assistir filmes sem ser incomodados ou parques para andar nas atrações sem multidões aglomeradas a seu redor, sempre ocorriam ameaças de violência física e mesmo de morte por parte de moralistas extremistas e fanáticos. Isso também ocorreu muito durante os anos 1970 em Vegas. Para ajudar na contenção das ameaças e evitar que alguma fosse cumprida, homens de confiança formaram a Máfia.

Esses homens providenciavam todos e quaisquer serviços. Joe Esposito foi o organizador das turnês por 17 anos; Sonny West era responsável pela segurança nos shows; Red West havia sido motorista de Elvis, Bill e Scotty em 1954 e providenciava a logística das viagens. Outros membros tinham funções menos próximas de Elvis, mas igualmente necessárias. Segundo Priscilla, cada um recebia um salário semanal de 250 dólares nos anos 60 que posteriormente passou a ser 425 dólares semanais nos anos 70. No Natal, a Máfia recebia bônus em dinheiro. Os mais próximos de Elvis ganhavam festas de casamento, casas, carros e outros presentes.



MÁ INFLUÊNCIA SOBRE ELVIS

Vernon passou a desconfiar cada vez mais de alguns membros da Máfia através dos anos, principalmente após 1972 quando as finanças saíram totalmente do controle e Elvis ainda perderia 50% de sua fortuna no acordo de seu divórcio que sairia em 9 de outubro de 1973. Muitos desses homens deixaram a Máfia por motivos pessoais ou por brigas com Vernon a respeito das finanças, mas voltaram mais tarde.

A briga mais conhecida é a de Vernon com Sonny e Red West. Vernon se preocupava com os possíveis processos que poderiam ser gerados por causa da maneira com que ambos seguranças tratavam os fãs. Vernon ordenou que o Coronel os demitisse com apenas algumas semanas de salário adiantado em 31 de julho de 1976 e tudo acabou em uma grande briga onde Vernon, Elvis, Sonny e Red, saíram desgostosos com a situação.

Isso levou Sonny e Red a escreverem o livro "Elvis: What Happened?", que seria lançado em 12 de julho de 1977. Elvis tentou um acordo monetário com ambos homens para que o livro não fosse publicado, mas nada foi acertado. O Rei do Rock se preocupava muito com as consequências que as revelações contidas no livro fossem gerar, principalmente sobre Lisa. As revelações de que ele era viciado em remédios controlados e das excentricidades fora do alcance da mídia até então não seriam nada boas. Depois do lançamento do livro, Elvis teria se preocupado muito com as repercussões em sua vida e carreira pelas duas semanas de vida que lhe restavam.

Os membros da Máfia por vezes serviam de pais substitutos e isso irritava Vernon. Elvis não ia a lugar nenhum sem eles e mesmo as garotas com quem ele se relacionava reclamavam que não tinham privacidade quando estavam com Elvis porque sempre havia alguém por perto. Billy Smith e sua esposa Jo passavam muito tempo com Elvis em Graceland e nas turnês e sempre diziam: "Elvis passava as noites na cama com nós dois, conversando sobre qualquer coisa. Às vezes ele tinha pesadelos e me procurava para conversar sobre aquilo. Então ele acabava dormindo na nossa cama, não viamos nada de anormal naquilo".

Além disso, a Máfia era a famosa incentivadora do comportamento errático e destrutivo de Elvis. Quando alugavam o Rainbow Rollerdrome em Memphis, eles brincavam de "War" (Guerra), um jogo que Elvis tinha orgulho de ser o criador. Os homens se dividiam em dois grupos e tentavam ferir os membros do grupo oposto de qualquer maneira possível. Outro jogo era o "Whip" (Chicote). A idéia de jogo divertido para Elvis era um que houvesse chance real de se ferir, incluindo o uso de fogos de artifício. Alguns membros da Mafia compravam até 15 mil dólares em fogos. Nesses jogos a divisão era também em dois times que ficavam jogando fogos de artifício um contra o outro. Elvis ficou com uma cicatriz no pescoço por causa de um que o atingiu e um dos seus amigos quase perdeu um olho.

A base da Máfia de Memphis no casamento de George Klein, 28 de dezembro de 1970.
De pé, da esquerda para a direita: Billy Smith, Bill Morris, Lamar Fike, Jerry Schilling, Roy Nixon, Vernon Presley,
Charlie Hodge, Sonny West, George Klein, Marty Lacker; 
a linha de frente: Dr. Nick, Elvis Presley, Red West.



GAROTAS E ACUSAÇÕES DE HOMOSSEXUALIDADE

Vários assistentes do Coronel e membros da Máfia tinham a função de conseguir garotas para Elvis, algumas eram até mesmo famosas estrelas de cinema.

Em suas memórias, Peggy Lipton conta que se sentiu "presa no quarto de Elvis porque ele ficou impotente comigo e eu não podia sair do quarto porque a Máfia estava toda do outro lado da porta". Buzz Cason chegou a falar de um "quarto com um espelho de dois lados, onde os membros da Máfia podiam espiar Elvis e as garotas que ali tinham relações sexuais". Natalie Wood ficou irritada quando Elvis se recusou a fazer sexo com ela e disse mais tarde que não era a única a pensar que "Elvis e a Máfia poderiam ser homossexuais, uma vez que ele sempre usava maquiagem mesmo fora do palco".

Erika Dee Loss enfatizou que "Elvis usava camisetas rosas e pijamas pretos com bolinhas rosas, deliberadamente se mostrando feminilizado" (rosa era a cor da época para as mulheres). Alan Fortas confirmou que "realmente havia especulações de que Elvis era homossexual ou pelo menos bissexual, motivo pelo qual o Coronel quis casá-lo rapidamente". Alguns rumores davam conta de que Nick Adams, um dos atores que sempre andavam com Elvis, era bissexual e eles se envolviam em relações sexuais.

De acordo com a história, Elvis tinha pavor de homossexuais, o que do ponto de vista psíquico é uma forte indicação de que a pessoa seja sexualmente reprimida. Ele até tinha medo de contracenar com Lizabeth Scott em "A Mulher Que Eu Amo" (1957) porque uma revista havia espalhado rumores de que ela seria bissexual e teria uma imensa lista de atrizes com quem se envolvia sexualmente. Elvis também se afastava de qualquer homem que pudesse estar interessado nele sexualmente, o que gerava ainda mais boatos sobre sua repressão. De acordo com Geoffrey Warde Robert Atwan, "a homofobia de Elvis é um padrão Freudiano interessante". Mesmo assim, não há nenhuma prova cabal de que Elvis não fosse hétero.

Elvis e Judy Spreckles nos bastidores do The Ed Sullivan Show; 5 de julho de 1956.
Spreckles diz ter sido uma das amizades mais próximas de Elvis e a pessoa a quem ele
teria confessado grandes segredos. Com apenas 21 anos na época, ela era alvo de críticas
ferrenhas da mídia por ter se casado com um milionário muito mais velho.


DIFERENTES OPINIÕES

Não é segredo que a Máfia de Memphis despertava muitas suspeitas. Alguns pensavam que aqueles homens não poderiam estar ali apenas por gostarem de Elvis, deveria haver algo mais. Patrick Humphries escreveu que "esses homens eram seguranças, traficantes de drogas, cafetões e pessoas sem habilidades especiais ou ambições na vida que ganhavam menos de 500 dólares por semana para aguentar as paranóias e gritarias de Elvis e esconder seus segredos mais sujos da mídia". Ainda segundo Humphries, "ninguém se sujeitaria a isso por tão pouco". Greenwold complementa que "Elvis frequentemente tinha surtos de violência e xingava muitas pessoas, sendo estranho que alguém quisesse se submeter a isso recebendo quase nada em troca".

Jerry Eden escreveu que ficou "enojado com as duas caras dos primos de Elvis, que claramente só estavam lá pelo dinheiro, presentes, casas, carros e mulheres rejeitadas por ele". Eden adiciona que "eram todos sanguessugas e, aparte de Charlie Hodge e Red West, eram caipiras sem escrúpulos que faziam de tudo para ganhar as coisas de graça. Eles se autointitulavam seguranças, mas na verdade eram apenas homens mesquinhos e interesseiros prontos para puxar o saco de Elvis em troca dos prêmios".

Embora a maioria das opiniões tendam a ir para o lado do que expressam Humphries, Greenwold e Eden, há aqueles que creem que a Máfia de Memphis era composta por gente honesta que só queria ajudar Elvis. Marty Lacker, um dos membros dela, defendeu seus amigos dizendo que "eles estavam lá por tudo, menos por dinheiro e prêmios, pois isso era o que eles menos recebiam. Todos queriam genuinamente cuidar de Elvis e de um do outro como se fossemos irmãos".

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