I'VE GOT TO FIND MY BABY!

O ÚNICO CANTOR MOVIDO A ENERGIA ATÔMICA: 1956 – A PRIMEIRA VEZ DE ELVIS EM LAS VEGAS

Elvis em frente à sua moldura de
papelão, posicionada na entrada
do New Frontier Hotel - 1956
Em 1829, Rafael Rivera, um jovem europeu, descobriu um lindo vale norte-americano onde o mato brilhante crescia selvagem. Ele deu ao vale o nome “Las Vegas” – em espanhol, “as pradarias”.

Foi descoberto, posteriormente, que essa parte do deserto tinha fontes de água naturais, o que atraiu os pioneiros. Mais tarde, os Mormons construiriam na região um forte para que os seguidores da religião tivessem onde passar a noite em sua viagem em busca de mantimentos entre Salt Lake City e Los Angeles.

Nevada se tornaria o trigésimo sexto estado dos Estados Unidos em 1844. No fim dos anos 1800, o ouro e o ferro descobertos na região atrairiam uma multidão.

Mas Las Vegas, oficialmente fundada em 1905, se fazia famosa não por isso, e sim pelas leis liberais da cidade. Lá podia-se divorciar-se em questão de dias. Em 1911 um divórcio poderia sair em questão de horas, bastando ter residido na cidade por mais de seis semanas. A cidade foi crescendo cada vez mais com a chegada desses tipos e se tornou um local com ruas cheias de hotéis e lojas.

Em 1931, a construção da Represa Hoover promoveu um boom na população. No mesmo ano as jogatinas foram legalizadas e logo Al Capone tornou-se uma figura constante naquelas ruas. No ano de 1935, enquanto Elvis nascia do outro lado do país, a cidade encheu-se de pequenos cassinos frequentados por pobretões e jogadores compulsivos que logo foram afastados com a chegada de Lucky Luciano e seus amigos da máfia, os quais viram ali um grande potencial para ganhos e lavagem de dinheiro.

A pequena Las Vegas em 1905


Através do sócio Bugsy Siegel, Luciano inaugurou em 1946 o Flamingo Hotel & Casino. Bugsy foi morto em seguida, sob alegação de roubo de lucros, por outro parceiro de Luciano, Meyer Lansky, que se apropriou da fama por ter “dado vida” a Las Vegas.

A cidade logo se tornou uma “ilha da fantasia”para adultos, trazendo pessoas de todos os lugares que queriam liberdade para jogar e contratar alguma garota dos chamados “serviços de acompanhante”. Sammy Davis Jr., Dean Martin, Frank Sinatra, o The Rat Pack, todos grandes figuras, entretinham as multidões, mas Las Vegas não tinha um rei – não até 1969.


The Rat Pack em apresentação em Las Vegas em 1965. Da esquerda para a direita:
Dean Martin, Sammy Davis, Jr., Frank Sinatra e o apresentador Johnny Carson.


Antes disso, ainda em 1956, o jovem cantor Elvis Presley chega à Cidade do Pecado com grande entusiasmo. Coronel Parker havia conseguido um contrato para apresentações no New Frontier Hotel entre 23 de abril e 6 de maio daquele ano pela astronômica quantia (à época) de US$ 17 mil.

Elvis já havia tido diversos sucessos de venda e crítica, e parecia lógico. “Herbreak Hotel” estava no topo das paradas e já vendera mais de um milhão de cópias, enquanto seu primeiro LP pela RCA, “Elvis Presley”, ia bem com 360 mil cópias vendidas. Seu contrato com a Paramount para “Love Me Tender” já era de conhecimento público também.

Os fatores contribuíam para que a experiência em Vegas fosse um sucesso. Mas a Cidade do Pecado estaria preparada para Elvis?


Poster do lobby do New Frontier Hotel anunciando os shows de Elvis - 1956


Em 23 de abril de 1956, enquanto bombas atômicas eram testadas no deserto próximo, Freddy Martin e sua orquestra eram a atração principal, mas o Coronel não deixou que a atenção fosse desviada de sua mina de ouro. Panfletos para a atração entregues na rua liam: “Freddy Martin e Sua Orquestra com Shecky Greene e Atração Extra ELVIS PRESLEY – ‘O Cantor Movido a Energia Atômica’”.

Em termos de publicidade, o Coronel era gênio. Ele pediu pessoalmente à RCA que ajudasse na divulgação do slogan “O Único Cantor da América Movido a Energia Atômica” e passou a inseri-lo em todos os cartazes e panfletos. A imagem clássica de Elvis em seu primeiro álbum pela RCA, tirada durante um show em Tampa, Flórida, foi usada e ampliada para a criação de um modelo de 6 metros de altura que impressionava o público que passava pela frente ou entrava no local.

Mas a platéia de Las Vegas era um desafio totalmente diferente. Era constituída de pessoas da alta sociedade, almofadinhas, e adultos em geral. Não era o território de Presley – na verdade, mal se via um adolescente por ali. Milton Berle havia trabalhado a figura de Elvis algumas semanas antes, levando-o a seu programa por duas vezes seguidas. Em 3 de abril, Elvis fez sua apresentação mais selvagem na TV, sendo assistido por 40 milhões de pessoas que amaram ou odiaram, mas com certeza nunca esqueceram. Sua performance foi alvo de críticas ferrenhas por seu “comportamento lascivo e obsceno”.

Vinte dias depois, as cortinas se abriam no New Frontier Hotel para mostrar um Elvis nervoso com Bill Black no baixo, Scotty Moore na guitarra e D.J. Fontana na bateria. A platéia os recebia com um silencioso olhar de surpresa. Para eles, aqueles quatro garotos pareciam caipiras ou uma forma de vida alienígena.

Muitos não conseguiam entender o sotaque de Elvis ou as frases que soltava aleatoriamente – muito menos sua música. Um grande grupo de pessoas se retirou depois que um homem levantou-se e, aos gritos, perguntou “que merda” era “aquela gritaria e barulheira”. E essa reação continuaria pelos próximos 14 dias. Para piorar, Elvis fazia duas apresentações de 12 minutos cada por dia – um sofrimento em dobro.

Elvis e Scotty Moore durante apresentação em Vegas - 1956


Pensando em melhorar as coisas, a gerência do New Frontier colocou um show extra no dia 28 de abril para os fãs adolescentes de Elvis, os quais não podiam entrar nas outras apresentações por causa da venda de bebidas alcoólicas.  Os jovens pagaram apenas um dólar pela entrada, valor que lhes dava direito a um refrigerante, e o total arrecadado foi revertido para a Federação Juvenil de Baseball de Las Vegas. Naquela noite Elvis voltou a ser o centro das atenções e alvo de gritos – mas de histeria. A platéia, composta majoritariamente de mulheres, saiu do show completamente exausta. Elvis, também.

Um jornalista do The Memphis Press Scimitar, jornal local de Memphis, descreveu a ocasião:

Os adolescentes que não podiam ver o show normal estavam pedindo para serem atendidos, e por isso a gerência montou um show especial.
A carnificina foi terrível. Eles se empurraram e se acotovelaram para entrar no salão com mil lugares e centenas de jovens extasiados zuniram como abelhas zangadas do lado de fora.
Depois do show, tumulto! Uma turba que gritava e ria cercou-o; ele fugiu para o santuário inseguro de sua suíte. A porta não os conteve. Eles agarravam sua camisa e a despedaçaram. Uma garota triunfante se agarrou a um botão como se fosse um diamante.
Um esquadrão policial teve de ser chamado para liberar o local.
Uma mulher mais velha, que havia sido surpreendida pela gigante onda juvenil, discutia o ocorrido confusa e incrédula no balcão do bar, onde bebia um coquetel medicinal para se acalmar.
“Meu Deus, o que aquelas garotas fizeram no banheiro! Batom por toda a parede... cestas de lixo jogadas e papel espalhado... parecia com o final de uma demolição.”
Elvis riu de tudo; “Nossa”, ele disse, “não foi tão ruim quanto outras vezes. Como quando elas jogaram pedras nas janelas do ônibus para tentar me agarrar e conseguir autógrafos.”

Elvis e Judy Spreckles nos bastidores do
The Milton Berle Show - 5 de junho de 1956
Fora dos palcos, Elvis passava a maior parte de seu tempo com a atraente Judy Spreckles, que havia se divorciado do barão do açúcar Adolph Spreckles. Eles haviam forjado uma forte amizade que se estenderia ao longo dos anos até a morte de Elvis e, ao que se sabe, era bem quista pelos pais do cantor.

Em 1974, quando o Rei gostava de polemizar em seus shows, ele a apresentou para a platéia – com direito a holofotes -  composta, além dos fãs, por Priscilla.


Durante seu romance em 1956, Spreckles presenteou Elvis com um anel de safira negra em forma de estrela – o qual ele deu a Priscilla posteriormente.

De volta ao palco do New Frontier em 1956, os ânimos não eram os melhores. A platéia recebia Elvis e sua banda sempre com desdém. Infelizmente não há muitos áudios disponíveis daquelas apresentações para realmente podermos tirar alguma conclusão, nem fotos em quantidade para se poder atestar quais roupas foram usadas. Dos áudios disponíveis, somente o segundo show de 6 de maio, a última noite de apresentações, é encontrado de forma completa, dando uma pequena brecha para o conteúdo e atmosfera da primeira temporada de Elvis em Vegas.

As críticas, geralmente negativas, eram sempre as partes mais lidas e esperadas dos jornais. Abaixo destacamos partes de críticas feitas durante as duas semanas de Elvis em Vegas no ano de 1956.

 “Elvis Presley, que chegou aqui com uma onda de publicidade e falhou em atingir a marca prometida nesta ilha em pleno deserto. O forte e ensurdecedor som de seu rhythm and blues, que o levou ao estrelato em outras partes, é insuportável. Seu som é tão péssimo quanto as letras e suas canções sem sentido. – Resenha de Bill Willard - Las Vegas Sun, 28 de abril de 1956.

Depois de finalmente conhecer Elvis Presley, não sei se serei feliz novamente. Elvis Presley é um jovem e intenso cantor que provavelmente ainda nem fez sua primeira barba, bebeu sua primeira cerveja ou deu seu primeiro beijo. E ele fica lá, maltratando seu violão; ele se balança como se estivesse com coceira nas roupas íntimas ou sapatos quentes. – Resenha de repórter desconhecido – Las Vegas Sun, 1º de maio de 1956.

Da parte da imprensa, poucos tinham coragem de falar em favor de Elvis como o jornalista Ed Jameson.

Não vim enterrar Cesar; vim agraciá-lo. É uma fraqueza da mente julgar algo antes de qualquer coisa. Apesar das críticas negativas e do rebuliço feito pelos meios jornalísticos, eu acho que o Sr. Presley vai sobreviver e cantar ainda mais. Não vai demorar muito para ele ser conhecido por todo o país. Ele tem um tom de voz profundo; ele tem classe, é calmo, legal e cheio de novidades. A música dele é surreal e única, cheia de mistério – ele realmente as faz chorar. Então, acalme-se, papai. Tire o sangue dos olhos. O garoto vai longe. Boa sorte, garoto. – Resenha de Ed Jameson – Las Vegas Sun, 12 de maio de 1956.


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Abaixo segue transcrição da última apresentação de Elvis em Vegas em 1956 (06/05/56 CS) e playlist da mesma.

Freddy Martin: Ele tem estado com nós em todos os lugares em que nos apresentamos e em todos os locais ele tem quebrado recordes. E falando em recordes, ele é o cantor número um em venda de discos no país - o orgulho da RCA. E esta é a sua última apresentação aqui, infelizmente. Nós realmente odiamos vê-lo partir, ele é um ótimo rapaz e um ótimo cantor. Vamos receber, senhoras e senhores, Elvis Presley!

(Elvis canta “Heartbreak Hotel”)

Elvis: Muito obrigado… senhoras e senhores. Gostariamos de dizer que foi um prazer estar em Las Vegas – esta é a nossa segunda semana aqui. E esta noite é a última, nós tivemos dificuldades... tivemos uma ótima estadia aqui. Temos algumas canções que gostaríamos de apresentar para vocês, nós as gravamos com nosso estilo de cantar – se vocês quiserem chamar de “cantar”... E esta é uma que eu realmente espero que vocês gostem. Essa realmente conta uma história, amigos. Não é somente triste, é deprimente. Deprimente. A canção se chama “Long Tall Sally”. Ela é nova por aqui, sabe... “Long Tall Sally”. Eu gostaria que vocês realmente ouvissem essa canção, ela conta uma história... e que história!

(Elvis canta “Long Tall Sally”)

Elvis: Obrigado, amantes da música! Muito obrigado, amigos! Aqui está mais uma canção que gostaríamos de apresentar a vocês. Para executá-la, gostaríamos de chamar Freddy Martin e sua maravilhosa orquestra para nos ajudar... ajudar muito! Anteontem neste palco a RCA me presenteou com um disco de ouro pela venda da milionésima cópia  de “Heartburn Motel”, que gravamos anteriormente, e estamos muito orgulhosos disso porque nos deu muito din... vendeu muito bem. E aqui tem outra que está quase lá e esperamos que atinja a marca do milhão. Esta canção se chama... “Saia do estábulo, vovó... Você é muito velha para cavalgar!”. Não, esta canção, amigos, se chama “Blue Suede Shoes”. Você conhece a canção, senhor Martin? “Saia do estábulo...” Conhece? E já ouviu falar daquela “Pegue sua tornozeleira de ouro de volta, minha perna está ficando verde”? Então, vamos tocar “Blue Suede alguma coisa”... “Blue Suede alguma coisa”. Vamos fazer algo ótimo, amigos, eu sinto.

Ah, sim, amigos. Vou dedicar toda minha parte do show - e espero que vocês gostem mesmo que façamos alguma coisa errada – a duas celebridades que estão aqui... Pode haver mais, mas estes dois caras eu, eu, eu... Sim. Eu sei que estão aqui e gostaria de cantar essa canção para eles... Ray Bolger está na platéia... Ray Bolger! E também Phil Silvers está na platéia. E Roy Ackuff, que está por aí.

(Elvis canta “Blue Suede Shoes”)

Freddy Martin: Um ótimo menino! Elvis, Elvis Presley! Vamos aplaudir Elvis! Não posso deixá-lo ir assim... Elvis! Mais uma, a saideira.

Elvis: Obrigado, amigos. Eu ia voltar, de qualquer maneira. Com toda a sinceridade... estou a dois passos de cair. Amigos, temos uma canção aqui, nós a gravamos e ela tem sido bem vendida... vendeu 43 cópias. A canção se chama “Money Honey”!

(Elvis canta “Money Honey”)

Freddy Martin: Elvis! Elvis, agradeça-os novamente. Vamos desejar uma boa viagem a ele. Elvis!


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