terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

26 de Setembro de 1956: Elvis Conquista Tupelo

Elvis no palco durante apresentação das 14:30; Tupelo, Mississippi, 26 de setembro de 1956

Não é novidade que Elvis adotou Memphis, no Tennessee, como sua casa desde cedo. Primeiro, quando as famílias Presley e Smith deixaram a pacata Tupelo, no Mississippi, em busca de emprego e melhores oportunidades de vida em uma cidade maior, a Memphis de 1948 simplesmente encantou o adolescente de 13 anos com todas as suas calçadas repletas de pessoas, as ruas movimentadas e principalmente os redutos onde os negros se reuniam para rir e cantar, além das igrejas. Depois, quando já era conhecido como "o Rei do Rock", a compra de Graceland, em 1957, foi a razão perfeita para que ele tornasse Memphis em seu local de moradia e descanso, recebendo inclusive a chave da cidade e consagrando-a, para fins comerciais, sua "cidade natal".

Porém, de acordo com amigos e familiares, Tupelo nunca realmente saiu de seus pensamentos. Elvis tinha a cidade no centro de seu coração e frequentemente lembrava do que vivera lá, da pobreza, dos percalços da vida, dos anos em que passou ajudando seus pais de qualquer forma que fosse possível. No entanto, desde 1 de agosto de 1955, quando sua fama mundial ainda não havia se estabelecido e ele era apenas uma das atrações do All-Star Jamboree, o cantor não visitava sua cidade natal.

Foi preciso encontrar uma brecha entre as sessões de gravação de discos e as filmagens de "Love Me Tender" para que ele pudesse, agora como estrela única no show, se apresentar para seus conterrâneos. Esse momento foi estrategicamente definido para o dia 26 de setembro de 1956, um dia após a abertura da maior feira de compra e venda de gado e laticínios da região, a qual comemorava sua 49ª edição.

Poster de 1956 anunciando as apresentações de Elvis em Tupelo

Elvis se apresentaria na Mississippi-Alabama Fair & Dairy Show, local em que em 3 de outubro de 1945 ganhara o terceiro lugar por sua interpretação de "Old Shep" e do concerto de 1955, mas agora com uma grande diferença: Tupelo, uma cidadezinha com apenas 8 mil habitantes, de repente se viu abarrotada com até 50 mil pessoas naquela quarta-feira ensolarada, todas ali para ver um único artista. O Coronel, Elvis e sua namorada Barbara Hearn, seus pais, o ator e amigo Nick Adams e a imprensa  não conseguiam acreditar que aquele mar de pessoas vinha de todos os cantos do país somente para ver o cantor.

Uma série de mudanças na cidade, nos procedimentos da feira e na Parada do Dia da Criança foram feitas na ocasião. Para a parada que ocorrera na manhã do dia 26, cujo tema do ano era "O Retorno de Elvis Presley", foram oferecidos prêmios de até 100 dólares para os carros alegóricos mais bem elaborados e todas as exibições deveriam ter uma música de Elvis como título; as bandas colegiais participantes também estavam convidadas a adicionar os sucessos do cantor a seu repertório na parada. Uma tentativa de fazer com que Elvis participasse do evento foi feita, mas o Coronel recusou citando que "apresentar Presley em um carro aberto no meio de milhares de pessoas seria incitar o surgimento de problemas."


Nas ruas, gigantescos banners liam "Tupelo Dá as Boas Vindas a Elvis" e a Guarda Nacional fazia patrulhas ostensivas para evitar contratempos. Era proibido estacionar nas vias principais e fazer aglomerações de pessoas. Quanto à imprensa, havia centenas de profissionais de todas as partes do mundo: A Fox queria filmar as apresentações; comitivas vieram da Inglaterra e Japão; centenas de jornais de todas as regiões do país enviaram seus melhores jornalistas para cobrir o evento e suas barracas foram estrategicamente montadas de forma a impedir que a multidão corresse atrás de Elvis após a saída dos shows. Toda a força policial de Tupelo havia sido chamada para evitar roubos e furtos, além de coibir condutas imorais e fechar locais que exibissem shows que pudessem ser lascivos.

Era hora do show e a plateia estava eletrizada. Todos haviam pago 1 dólar e cinquenta centavos por ingresso, o dobro do que normalmente era cobrado, para ver seu ídolo. Os gritos de "nós queremos Elvis!" de alguns se aliavam ao silêncio petrificado de outros, gerando uma atmosfera caótica. Nick Adams lembrou, em entrevista dada anos mais tarde, do que viveu naquele momento: "Quando o início do show de Elvis foi anunciado para a multidão, os gritos foram tão altos que eu pensei que perderia a audição. Quando ele entrou no palco, parecia que uma bomba atômica havia explodido."

Afastados do palco, Vernon e Gladys observavam com apreensão, temendo que a apresentação pudesse acabar como tantas outras onde fãs descontroladas subiram a plataforma e rasgaram as roupas de seu filho. Parker, como não poderia deixar de ser, tinha um sorriso gigantesco estampado no rosto.


Ao começar seu ato com "Heartbreak Hotel", usando calças azul-marinho, camisa de veludo azul-marinho e sapatos brancos, era quase impossível ouvir a banda e até mesmo alguns dos vocais de Elvis devido aos gritos eufóricos das fãs. Na continuação com "Long Tall Sally", a plateia simplesmente explodiu em êxtase histérico quando o Rei do Rock começou a dançar no palco durante o solo da guitarra de Scotty Moore.

Após um intervalo de menos de um minuto, o governador do Mississippi subiu ao palco para presentear Elvis com um documento que fixava o dia 26 de setembro como o "Dia de Elvis Presley" na cidade. Seguindo a cerimônia, o prefeito de Tupelo entregaria a ele a Chave da Cidade, uma guitarra estilizada de metal com o braço em forma de chave e os dizeres "EP, Welcome Home - Tupelo, Miss." gravados.

Elvis apresenta a Chave da Cidade de Tupelo para fãs e a imprensa

De volta ao show, "I Was the One", lado B do single "Heartbreak Hotel", novamente leva a plateia ao delírio. "I Want You, I Need You, I Love You", "I Got a Woman", "Don't Be Cruel", "Ready Teddy" e "Love Me Tender" continuariam a fazer com que as fãs alternassem momentos de euforia calma com outros de total histeria. Judy Hopper, uma fã de 14 anos, passou por 50 policiais e subiu no palco para abraçar o ídolo aos prantos durante "Don't Be Cruel". Apesar de ser carregada para fora da plataforma e ficar sob estrita vigilância policial após o incidente, ela ainda conseguiria falar com Elvis e seus pais no final da apresentação. Em seguida, centenas começaram a tentar fazer o mesmo e Elvis precisou se esquivar; ao chegar perto demais de uma das bordas do palco, algumas fãs arrancaram botões de sua camisa.




O caos tomou conta, embora Elvis conseguisse controlar bem os ânimos dos fãs, até que "Hound Dog" fizesse com que as bases do palco tremessem com o empurra-empurra da plateia, algo para o qual o cantor já havia chamado atenção a pedido dos organizadores.

Enquanto Elvis deixava o palco para algumas horas de descanso até o próximo show, a rádio WELO fazia uma pequena entrevista com Vernon e Gladys. Ao serem perguntados sobre quais músicas do filho eles mais gostavam, Vernon cita "That's All Right" e "Hound Dog"; para Gladys, eram "Baby Let's Play House" e "Don't Be Cruel".




Às 19:30 daquele mesmo dia, Elvis voltaria ao palco para sua segunda e última apresentação na cidade naquele ano vestindo calças pretas, uma camisa de veludo vermelho e sapatos brancos. Pouco antes, ele daria uma entrevista para a rádio WELO e falaria sobre a recepção inesperada: "Eu não esperava que voltar para casa fosse algo tão importante. Há filas de carros na estrada!" Os milhares de fãs impediram que o cantor pudesse visitar a cidade, mas ele conseguiu rever velhos amigos nos bastidores.

Perguntado sobre a infância em Tupelo, o cantor respondeu: "Eu costumava entrar clandestinamente nesta feira. Fui escoltado para fora algumas vezes. Com essa multidão, espero que me escoltem hoje de novo. Mas, na última vez em que estive aqui, não tinha uma moeda para entrar."

A lista de músicas era praticamente a mesma da tarde, com adição de "Blue Suede Shoes", a qual o cantor apresentou como "uma canção que já está ficando velha", e "Baby Let's Play House", esta especialmente para Gladys.

Elvis durante o show das 19:30

Mas se Elvis teve de chamar a atenção da plateia uma ou outra vez por questões de segurança no show da tarde, à noite as coisas seriam muito mais caóticas. Outros 50 policiais da Guarda Nacional tiveram de ser enviados a Tupelo para a apresentação. O cantor teve de parar o concerto por três vezes para pedir aos fãs que parassem de se empurrar porque pessoas estavam se machucando seriamente e para que quem estava de pé na beira do palco se sentasse para que o público mais atrás também pudesse vê-lo. "Não posso continuar desse jeito!", exclamou quando a polícia não conseguiu conter fãs que rasgavam sua camisa. 

De fato, o grande número de chamados de emergência após o show não deixava dúvida: O "Furacão Elvis" havia passado por Tupelo. E esse verdadeiro fenômeno da natureza foi noticiado em todos os EUA em reportagens que exaltavam a façanha de juntar de 20 a 50 mil fãs em um único lugar, dependendo da fonte.


Edith Haynie, do The Tupelo Journal, escreveu em 27 de setembro de 1956:

Para vinte mil fãs gritando, foi um "Heartbreak Hotel" na quarta-feira, quando Elvis Presley voltou para casa na feira. E desta vez não foi preciso escalar uma cerca para entrar. Guardas nacionais convocados para a apresentação noturna estavam com as mãos cheias de adolescentes histéricas que lutavam contra o cordão de homens ao redor do palco. Dezenas arranharam, puxaram o cabelo e empurraram por uma chance desesperada... "Está tudo ótimo", disse Elvis. "Essas pessoas são realmente ótimas e tudo mais."

Depois de passadas as formalidades de boas-vindas para o garoto local que se saiu bem na vida, o giratório Elvis e seu violão se lançaram em uma apresentação diante de uma multidão barulhenta de cerca de 5.000 pessoas. Mais de 40 patrulheiros rodoviários e policiais da cidade circundaram o palco de um metro e meio de altura, construído para manter os fãs ansiosas a uma distância segura. "Elvis", as meninas gritavam, brincando com seus cabelos e soluçando histericamente. "Por favor, Elvis." A ribalta foi arrancada de seus encaixes enquanto as meninas tentavam desesperadamente tocar seu ídolo. Várias fãs desmaiaram e quase foram pisoteadas na confusão.

Presley ganhou US$ 5.000 mais 60 por cento da bilheteria por suas duas apresentações. Um longo desfile em sua homenagem ocorrera sem ele na manhã de quarta-feira. O risco era muito grande, disse seu empresário.


Em outro periódico do mesmo dia, a manchete dizia:

Tupelo, Miss. - (INS) - Elvis Presley fez rock e colocou sua cidade natal, Tupelo, Mississippi, em um frenesi - um tipo de coisa que não se via na preguiçosa cidade do sul desde os dias da Guerra Civil.

Elvis entrou na cidade na quarta-feira em uma limusine branca e deixou 50.000 pessoas presentes na grande Feira Mississippi-Alabama em êxtase. Ele perdeu o grande desfile que contou com carros alegóricos elaborados com o tema "rock'n'roll" em sua homenagem, mas não decepcionou os 12.000 fãs que compareceram gritando e se contorcendo às suas duas apresentações - pelas quais ele arrecadou US$ 5.000 mais 60% do valor total.

Cerca de 30 policiais foram necessários para conter uma multidão de adolescentes que tentavam se aproximar de seu ídolo cantante enquanto ele girava o quadril pelo palco de um metro e meio gritando seu hit "Hound Dog". Mesmo com essa proteção, porém, Elvis perdeu os botões de sua camisa de veludo azul quando se aventurou muito perto da borda do palco. A certa altura, uma onda de jovens rompeu o cordão policial e tentou escalar a plataforma, forçando jornalistas e fotógrafos a subir no palco por segurança.

A sensação de 21 anos recebeu citações do governador do Mississippi, James P. Coleman, e do prefeito de Tupelo, James Ballard. Elvis morou em Tupelo até terminar a oitava série e começar sua ascensão à fama lá tocando violão e cantando em programas escolares. Sua família mudou-se para Memphis, Tennessee, onde ainda residem.


Após as apresentações, Elvis havia embolsado US$ 12 mil - 60% da arrecadação dos ingressos para seus shows. Antes de partir para Memphis, o Rei do Rock visitou o prefeito e disse que vira sua antiga casa e os 15 acres que estavam à venda em torno dela. Em um ato de generosidade, ele devolveu seus ganhos à prefeitura em troca da construção de um centro de recreação para as crianças e adolescentes de East Tupelo naqueles 15 acres. Sua motivação estava na infância, no fato de que ele e todos os jovens daquela região tinham de ir até o lado mais rico da cidade para nadar, ver filmes ou brincar em um parque, locais onde eram mal vistos pelas pessoas e frequentemente chamados de "lixo branco".

Além do pedido, Elvis deixou claro que retornaria no ano seguinte para um show beneficente para arrecadar fundos para a obra.

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Textos originais: ScottyMoore.net
Fotos: Google
Tradução: Elvis Presley Index | http://www.elvispresleyindex.com.br
>> a re-disponibilização desta tradução só é permitida se mantidos os créditos e sem edições.<<

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